Sita Valles – Um Retrato

31.05.2007

Sita Valles

No início do ano de 1950, uma velho barco com o sugestivo nome de “28 de Maio”, chegava ao então enclave de Cabinda, transportando, entre outros passageiros, Edgar Valles e a mulher Maria Lúcia Dias Valles, um casal de goeses.

Engenheiro agrónomo integrado nos quadros dos Serviços de Agricultura e Florestas de Angola, Edgar Valles fazia o percurso típico do funcionalismo público nas colónias. Começava-se nas localidades mais longínquas e terminava-se a carreira normalmente na capital, Luanda.

As condições eram inóspitas em Cabinda, naquele tempo. Comía-se chicuanga, em vez de pão, raízes de maninhot em vez de batatas. Não tinham casa, mas uma estrutura denominada pavilhão.
O vento intenso provocava ruídos arrepiantes, tal como os uivos dos mabecos. As chuvas tropicais inundavam tudo, deixando a roupa em estado lastimável. As bacias e baldes não eram suficientes para reter as águas que entravam por todo o lado.

As camas estavam molhadas, o calor sufocante.

Foi neste ambiente hostil que Maria Lúcia deu à luz Edgar, em 1 de Julho de 1950, e Sita Maria, em 23 de Agosto de 1951.

De Cabinda, Sita não guardou recordações, pois ainda não tinha dois anos quando o pai foi colocado em Silva Porto, hoje Bié. Aí viria a nascer o terceiro irmão, Edgar Francisco, em 19 de Agosto de 1953.

Mais tarde, uma passagem por Benguela, em 1956/57. Luanda, finalmente.

Aí fez os estudos até ao quarto ano de medicina. Aluna de quadro de honra, com notas elevadas, dedicava-se também ao desporto (natação), no Clube Nun’Alvares. Ganhou vários troféus para o seu clube, participando nos campeonatos provinciais.

O DESPERTAR POLÍTICO

Sita Valles

Muito jovem, despertou para os problemas sociais. No parque florestal, onde vivia com a família, em Luanda, trabalhavam “contratados”, que vinham de várias regiões de Angola, com salários muito baixos.

Resolveu, por sua livre iniciativa, falar com o Director dos Serviços de Agricultura, chamando a atenção para a exploração a que estavam sujeitos, solicitando um aumento de salário.

Tinha apenas 15 anos. O director dos serviços chamou o seu colega Edgar Valles e disse-lhe: “ se não fosse seu amigo, comunicava este assunto á PIDE, pois a sua filha está a tomar atitudes políticas”.

Mais tarde, já na Faculdade de Medicina de Luanda, integrou-se num grupo de estudantes progressistas, denominados “cor-de-rosa”, por lerem o “Comércio do Funchal”, então dirigido por Vicente Jorge Silva.

Em 1971, dirigia-se para Lisboa, para concluir Medicina. Mas o desejo de participar na luta política estudantil foi mais intenso e passados alguns meses estava na Direcção da Associação de Estudantes, cujo presidente era José Manuel Jara, do Huambo. Curiosamente, a direcção era constituída por muitos elementos vindos de Angola, como Manuel Vidigal, António Saraiva…

Pouco tempo depois, ingressava no Partido Comunista Português, militando na UEC (União dos Estudantes Comunistas).

Em 1972, já estava na Direcção da UEC da Faculdade de Medicina. Tinha uma grande preocupação com as questões coloniais, participando em debates e na agitação política.

Lisboa era, então, o fervilhar de movimentação políticas contra o regime, que iriam culminar com o 25 de Abril de 1974.

O 25 DE ABRIL

No dia 25 de Abril Sita encontrava-se em Moscovo, representando a UEC no Congresso do Konsomol (Juventude Comunista da União Soviética).

A sua presença no Congresso era clandestina. Sita, era, aliás, um dos dois únicos membros do Comité Central da UEC que ainda não estavam na clandestinidade.

Com a revolução, dedicou-se a tempo inteiro à política, suspendendo os estudos.

O seu entusiasmo era marcante, fazendo despertar muitos jovens para a política.

REGRESSO A ANGOLA

Teria sido cómodo continuar em Portugal, onde havia comodidades e estava totalmente integrada.

Mas o sonho continuava a animar Sita.

Em Junho de 1975, quando o MPLA atravessava grandes dificuldades, Sita chega a Luanda, decidida a dar o seu melhor pela causa do povo que a tinha visto nascer e crescer.

O Bureau Político do CC do MPLA incumbiu-a de organizar o sector intelectual do movimento. Decide também retomar os estudos na Faculdade de Medicina.

Entretanto, começam a surgir lutas internas cada vez mais intensas no seio do MLA. O grupo liderado por Lúcio Lara, no intuito de afastar Sita, propõe a expulso do MPLA de todos aqueles que tinha militado anteriormente em outras organizações.

Esta medida acabou por significar a expulsa de Sita e de outros militantes que estavam próximos.

Todavia, a sua imensa capacidade de trabalho não foi afectada. Apostou na conclusão dos estudos, que terminou em 1976, continuando a interessar-se pelas questões políticas.

O nascimento do seu filho João Ernesto (CHE, em homenagem a Che Guevara) constituiu uma enorme alegria para Sita.

Em 8 de Fevereiro de 1977, Che nasceu em Luanda. Estaria pouco mais de três meses com seus pais, pois o dia 27 de Maio, uma tragédia em Angola, representou, para a criança, um dia terrível…

Todo o seu amor e dedicação pelo povo angolano foi posto em causa pelo grupo dirigente do MPLA.

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Comentários

11 Reacções a “Sita Valles – Um Retrato”

  1. José Gago da Silva 15.06.2007 - 14:35:20

    Estou emocionado com a recordação da Sita Valles, pois foi numa das minhas idas a Angola, quando estudante do IST, que conheci a Sita, o Ademar e o Edgar. Nessa altura começamos a discutir a situação politica de Angola e ela inteligente como ninguém, rapidamente se tornou numa lutadora por uma causa que teve o fim trágico já sobejamente conhecido. Obrigado por a terem recordado.

    J. Gago da Silva

  2. Materadzis 16.06.2007 - 16:33:15

    Gostava de saber do paradeiro do filho de Sita Valles. Será o João Van-Dúnen que vive em Inglaterra? Fiquei muito comovido com o acontecimento.

  3. Calomboloca 28.07.2007 - 20:01:46

    Há dias fui ver a exposição “Pinturas Cantadas” no museu de Etnologia, mulheres indianas relatam acontecimentos seus e da comunidade pintando sobre painéis de papel, são pinturas mto coloridas , vivas mto semelhantes à pintura naífe. Dos vários painéis há um que nos fala da história de SITA e lembrando-me da n/ Sita quis logo saber quem foi esta SITA e aqui transcrevo o que vem no catalogo da exposição: “SITA a heroína do Ramayma e mulher de Rama; como incarnação de Lakshmi representa a prosperidede, a terra e a Deusa. Raptada pelo demónio Ravana que mantendo-a em cativeiro tenta convencê-la a casar com ele. SITA é libertada e levada de volta a Rama que suspeita da sua fidelidade. SITA tem de provar a sua pureza pela ordália do fogo. No seu regresso ao trono de Ayodhya Rama desconfia de novo dela e expulsa-a. Profundamente magoada SITA chama a sua mãe Terra que abrindo-se a leva para a nascente de onde tinha brotado. Rama ficou extremamente infeliz e decidiu abandonar a existência mortal.” Sita Valles foi mto corajosa e tal como a heroína do Ramayana acreditava na verdade e justiça dos seus governantes daquela altura, enganou-se e foi trucidada mas nós continuaremos a lutar pra que seus esforços não tenham sido em vão e a verdade destes acontecimentos chegará brevemente , lembrar sempre para não esquecer

  4. Maria Rodrigues 28.08.2010 - 21:45:57

    Acabo de ler a biografia da Leonor Figueiredo e fiquei impressionada. Nasci em Agosto de 74; cheguei a viver em Luanda nos primeiros meses de vida e estou ligada, emocionalmente, a Angola. A história mexeu comigo e estive a compará-la com o artigo que a F. Cabrita escreveu em 92. Espero que um dia todas as verdades virem azeite!
    Cumprimentos à Sra. Dª Lúcia Valles e ao Dr. Edgar Valles.

    Maria Rodrigues

  5. Carlos Meneses 29.08.2010 - 18:09:51

    Querida Sita ( não me sei dirigir de outra forma…)
    Que o livro ora publicado permita “trazer à memória” algo tão vil quanto cruel, que alguém um dia ousou cometer – assassínio – sem contraditório…
    A imaterialidade da reconstituição e a impossibilidade da ressurreição assim o determinam. Que um dia seja possível saber-se quem foram…onde estiveres…fica bem.

  6. Aduzinda conceiçao 30.08.2010 - 16:36:06

    Foi uma Pequena Deusa…
    tão inteligente, tao viva, tao lucida…
    Foi uma grande mulher…
    tao corajosa, tao rebelde, tao ingenua…
    tão sonhadora,tão realista, tão optimista…
    É bom saber que quando partir vou encontrar pessoas como tu no alem…assim sendo não vejo a hora de partir,assim sendo não vejo a hora de estar contigo.
    Obrigada por teres existido.

  7. Fátima Cristelo 04.09.2010 - 00:41:44

    Conheci a Sita, tínhamos ambas 10 anos, no Liceu Salvador Correia. Demo-nos sempre muito bem, pois tínhamos feitios parecidos. Era uma miúda muito viva, bem disposta, inteligente, com bom senso e amiga do seu amigo. Foi no início dos anos 60′s (1960/61). Há uns anos atrás, nas lides autárquicas, quando revi o Edgar, perguntei-lhe pela Sita. E foi ele quem me disse o que lhe tinha acontecido. Nem queria acreditar. Esta semana, em Coimbra, vi o livro na montra da Bertrand. Ia com a minha irmã e disse-lhe: “Mas esta é a minha amiga Sita, de Luanda”. Entrei e comprei o livro. Li-o em 2 dias. Impressionante! O que tu sofreste, amiga, em defesa dos teus ideais. Eu sou como tu. Também me meti na política e contesto contra tudo e contra todos, se achar que estão a distorcer os ideais que eu abracei, quando entrei para o Partido Socialista. Se tivesse ficado em Luanda, certamente ter-me-ia acontecido o mesmo que te aconteceu a ti, amiga. Pois o que te revoltou, ainda hoje me revolta a mim. Não era assim que gostaríamos que o nosso povo estivesse. Acreditámos que com a independência de Angola, a miséria do nosso povo acabaria. Mas não! Trinta e cinco anos depois, o povo angolano continua a sofrer com as diferenças sociais que existem no país. Descansa em Paz, amiga. És uma heroína. Jamais te esqueceremos.
    Fátima Campos (nome de casada)

  8. Maria Gomes 08.09.2010 - 17:38:38

    São estes os verdadeiros heróis do nosso tempo…Sou professora e estou a tentar implementar uma “discussão”entre projectos da escola sobre os verdadeiros heróis…espero conseguir lançar o nome de Sita.
    Que mulher fantástica.

  9. Carlos Barbosa 14.09.2010 - 19:01:16

    Nunca conheci a Sita Valles pessoalmente.

    Vi-a uma vez em 74 ou 75, quando veio ao Porto para uma reunião da UEC à qual assisti.

    Eu era muito novo, tinha 17 ou 18 anos e tenho uma ideia muito vaga dela, nem sequer sabia que era de origem indiana e muito menos que era angolana, pensava que era portuguesa.

    Algum tempo depois comentou-se que ela tinha ido para Angola e que se tinha envolvido no MPLA em actividades “fraccionistas” com o grupo do Nito Alves e que foi fusilada. Ficamos todos admirados e constritados, mas nunca se chegou a saber pormenores, comemtava-se apenas como se não nos dissesse respeito, ficou sempre uma névoa a pairar no ar.

    Ao dar uma volta pelo NorteShoping, vi o livro da Leonor Figueiredo na montra da Livraria Bertrand e fiquei intranquilo e intrigado que senti a necessidade de saber o que realmente tinha acontecido.

    Li o livro num fôlego, revoltei-me, comovi-me, chorei…

    Sita é um nome a não esquecer, bonito nome.

    Carlos Barbosa

  10. Luisa Lisboa 22.08.2011 - 23:05:34

    Acabo de ler a incrível história de uma, seguramente extraordinária, MULHER que me fez chorar, emocionar profundamente, reflectir muito sobre tantas coisas!!!
    Como foi possível aquele genocídio! Como foi possível o mundo inteiro assistir quedo e calado!Como foi possível acreditar tanto que aquele povo seria salvo da miséria e de um regime que ainda hoje o cala. Obrigada Sita, pela coragem, pelo exemplo de imensa dignidade.Creio que porque lutaste por um bem maior para o teu POVO estarás num lugar de PAZ, a que te negaram aqui.
    Obrigada a Leonor Figueiredo por nos trazer este testemunho.
    Um especial e caloroso abraço a sua também extraordinária mãe, permita-mo D. Lúcia!

  11. Fátima Pereira 04.09.2011 - 16:21:34

    Estou emocionadíssima com a história desta mulher.
    Eu também nasci em Angola. Poucas são as memórias que tenho desse belo e lindo país. Toda a minha família sofreu muito com a vinda. Sou angolana de coração. Tudo o que ouço dizer dessa terra mexe comigo. Sinto muitas saudades do que vivi, mas que a memória teima em não querer vingar.
    Quero dirigir umas palavras de apreço, à escritora Leonor Figueiredo pelo extraordinário livro que escreveu sobre Sita. Nunca tinha ouvido falar dessa incrível mulher, mas assim que vi o livro, na montra da livraria, tive uma curiosidade imensa de o ler. Como gostaria de ter conhecido essa mulher… Meu pai ouviu falar, ligeiramente, do caso (minha mãe faleceu com uma dor muito grande, pois a vinda de Angola lhe roubou uma vida de sonho).
    Tal como alguns participantes, gostaria de saber o que aconteceu ao filho de Sita. Por certo, é um ser humano extraordinário.
    Fátima Pereira

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