2 – OS ANTECEDENTES HISTÓRICOS

01.02.2004

2º OS ANTECEDENTES HISTÓRICOS – AS DIVERSAS FRENTES DE LUTA GUERRILHEIRA NUNCA SE ENCONTRARAM

“Pela primeira vez, um Partido revolucionário clandestino pôde sair das trevas da ilegalidade para aparecer em pleno dia, para mostrar a todos e a cada um a marcha e o resultado da nossa luta, o seio do Partido, a fisionomia do nosso Partido e de cada um dos seus elementos um pouco marcantes, em matéria de programa, de táctica e de organização. Pela primeira vez, podemos libertar-nos das tradições do desmazelo próprio do espírito de grupo e do filisteismo dos meios revolucionários, reunir dezenas de frutos dos mais diversos, muitas vezes ferozmente hostis uns aos outros, unicamente ligados entre eles pela força de uma ideia e prontos (prontos em princípio) a sacrificar o seu particularismo e a sua independência de grupo em benefício de um todo grandioso, o Partido que, verdadeiramente estamos a construir pela primeira vez.”(8)

Estas palavras de Lénine aplicam-se criadoramente ao MPLA logo após o 25 de Abril e são por isso a síntese teórica do momento que vivemos com ressalva de que o MPLA não vinha só da clandestinidade, mas também da guerrilheira luta armada que criara a sua própria legalidade.

O desenvolvimento da primeira luta armada contra o colonialismo operou-se de modo diferente e característico em cada uma das principais frentes de Guerrilha. Nesta fase, a luta clandestina, gerada e desenvolvida principalmente em Luanda, conheceu de igual forma, cambiantes de diversos matizes.

É natural pois que, embora continuassem fiéis à linha política geral do MPLA, em relação a questão de estratégia e táctica – política dum lado e militar doutro – em relação a questões de organização; em torno de problemas concretos é defensável que cada uma das regiões participantes do amplo movimento de libertação nacional tivesse a sua própria concepção, fruto concreto da luta e da relatividade de conhecimentos a respeito da evolução do movimento de libertação nacional e da aliança com o campo socialista mundial, com o movimento operário e revolucionário mundial.

Para além disso, o MPLA, no seu permanente equilíbrio dinâmico, sofreria inevitável e necessariamente, ao longo dos seus vinte anos de existência da luta resultante da contradição dialéctica – embora secundária – inerente a composição de classes, grupos e camadas sociais que o MPLA comporta à luz do seu artº 1, forças motrizes do nosso processo de libertação nacional, historicamente condicionadas para o cumprimento do nosso Programa Mínimo.

Na verdade, unidos embora na ampla frente (que é de resto o MPLA) anti-colonialista e anti-imperialista, as forças em aliança nessa frente, dificilmente encontrariam a mesma linguagem no quadro específico da luta anti-capitalista ou seja no quadro mesmo geral da opção socialista, isto exactamente em função da natureza irreconciliável dos seus interesses económicos, políticos, sociais e culturais essenciais, que, logo após a vitória sobre o colonialismo entrariam imediata e inevitavelmente em cena.

A experiência dos bolcheviques ensina-nos que os problemas políticos do processo revolucionário não podem ser iludidos, sentimentalmente escamoteados, e é dever de todos os revolucionários leva-los em conta e nunca separá-los da experiência viva que se vai vivendo no quotidiano da luta e da revolução.

É por esta razão que o genial autor do”Que Fazer?” ensina sem ambiguidades nem equívocos:

“Nestas condições, um erro,”sem importância” à primeira vista, pode levar às mais deploráveis consequências e é preciso ser míope para considerar como inoportunas ou supérfluas as discussões fraccionistas e a delimitação rigorosa dos matizes. Da consolidação deste ou daquele”matiz” pode depender o futuro da social-democracia russa por muitos e longos anos.”(9) O sublinhado é da minha modesta sugestão.

Ora em boa verdade, é depois do 25 de Abril que a muitos de nós é dada a oportunidade histórica de conhecermos o seio do MPLA, a sua direcção e os seus mais destacados dirigentes, conhecer os elementos de estratégia e táctica e de organização.

Não foram das mais óptimas – em certo sentido – as circunstâncias em que tal encontro e conhecimento se processaram. Com efeito, a luta que se travava em relação às duas”revoltas” não permitiu até certo ponto o conhecimento real da fisionomia da direcção do nosso MPLA. Imagem indubitavelmente positiva colhida desse momento foi a do camarada Presidente Drº Agostinho Neto que de imediato nos apareceu como”leader” que levaria esta revolução até às últimas consequências.

A história do acidentado e fracassado Congresso de Lusaka – se algum dia for correctamente escrita, confirmará exactamente o que alguns de nós tínhamos constatado com aflição, as hesitações de muitos, as explicações confusas e ambíguas que certos dirigentes entre os quais o próprio membro do Comité Central, Lúcio Lara nos facultava em relação à Revolta Activa o que visava persuadir-nos de que eram verdadeiras as acusações”essenciais” que se levantavam contra o camarada Presidente! Estes camaradas só criticavam a forma encontrada pela Revolta Activa para solução dos problemas internos!!…

Entretanto, apesar dessa actividade desmobilizadora , perante a Revolta Activa tomámos a única posição militante possível, histórica e revolucionariamente correcta e indestrutível.

No fundo, do comportamento político real de certos dirigentes restava-nos concluir que a coesão interna no seio da direcção de então não era monolítica e que apenas razões de outra ordem haviam forçado alguns camaradas a permanecerem fiéis ao camarada Presidente.

O filisteísmo de grupos e”famílias” no seio do MPLA apareceu-nos nitidamente. Os próprios abraços e sorrisos nem conseguiam dissimular o cinismo da mentalidade frentista – havia de facto a”família do Leste”, a”família de Cabinda” e a”família da Primeira Região” e a”família da clandestinidade”. Não é por acaso que se dizia que Cabinda era o laboratório de quadros e se reservava a outras frentes outras designações?

Ora, neste particular, a Primeira Região perspectiva, julgando interpretar deste modo o pensamento da direcção superior da luta armada à escala nacional, um quadro de transição em tudo diferente ao que se nos foi dado a observar e viver no após 25 de Abril. A flexibilidade de táctica mas a intransigência nos princípios essenciais e objectivos finais; o julgamento inadiável de todos os traidores da revolução, o rompimento com o revisionismo e reformismo e a consequente direcção marxista-leninista, tudo isto constituiu um sonho vivo, quanto a nós que idealizávamos no quotidiano das guerrilhas.

É o próprio Camarada Presidente que, na escola dos Oficiais no Huambo iria afirmar:”Foi na Primeira Região em que a luta foi mais dura, pelas características da região e da sua população, e mesmo pelas condições determinantes da sua acção”.

Não podia ser de outro modo: estas condições determinantes da acção na 1ª Região tinham que marcar, passe a modéstia, dum modo profundo os combatentes que nela lutaram, tinha que lhes imprimir um certo carácter especial e, como dizia Goethe,” o talento forja-se na calma; o carácter no turbilhão do mundo”.

Separamo-nos depois, cada um para a sua frente.

A chegada da delegação oficial do MPLA a Luanda constitui o início duma outra fase histórica na evolução histórica do MPLA.

Esta fase caracterizou-se principalmente por:

- Incapacidade e fraco poder de direcção político – revolucionária;

-Confusão entre estratégia e táctica;

-Ausência total duma única teoria completamente acabada para a fase;

-Afluxo de muitos e novos elementos para o MPLA;

-Incapacidade e fraco poder de organização;

-As estruturas políticas e ideológicas e organizativas do MPLA revelam-se impotentes para enquadrar o movimento de novos membros daí o surgimento do seguidismo, do dogmatismo, dos sistemáticos desvios à direita e à esquerda;

-O próprio Comité Central por inexperiência, comete um dos erros mais significativos nesta fase: alarga o 2º Plenário do Comité Central com representantes de”Comités” que se proclamavam do MPLA, como os CACs e similares, chegando mesmo a constituir nessa base a Comissão Directiva de Luanda!

Perante o fenómeno Poder Popular, apenas o camarada Presidente Agostinho Neto vai tomar posição vertical. O membro do Bureau Político Lúcio Lara afirmou em Conferência de Imprensa que entre o MPLA, a UNITA e a FNLA a diferença não era ideológica e que todos os movimentos lutavam pelo mesmo objectivo que era a independência nacional. Isto, numa altura em que os canibalistas da upa / fnla já tinham massacrado centenas e centenas de militantes nossos! – uma afirmação que não cabe na táctica revolucionária e é portanto inequívoca posição capitulacionista. Nesta altura o nosso Povo chamou traidor ao actual Secretário Administrativo do Bureau Político. Esta conferência de Imprensa ficou tristemente e irritantemente famosa. Na verdade esta tese era a política da unidade com os fantoches e não de compromissos transitórios com os mesmos.

Enfim, foi uma época de caos total nos planos de organização e da teoria, e o MPLA vivia de quatro grandes componentes: o camarada Presidente, a 2º guerra de libertação, o entusiasmo espontâneo das massas, a bandeira e os crachás do MPLA.

E o nosso Povo sabe o que cada um de nós disse e fez de concreto, sabe como é que cada um de nós reagiu nessa fase difícil, inclusive o comportamento político do MPLA no então Governo de Transição. O oficial fascista como Almendra, o responsável pelo massacre da Vila Alice, foi promovido de Tenente Coronel a General graças, entre outras coisas, ao papel de certo governante indicado pelo MPLA, que em Portugal, fez elogios daquele fascista junto dos meios progressistas. Esta verdade é conhecida pelos meios mais atentos e vigilantes do MPLA.

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